2. FUNÇÃO INTELECTUAL DA FILOSOFIA
É importante voltarmos as vistas para as primeiras linhas da Metafísica, onde Aristóteles, com marcado ênfase, nos diz que o desejo de saber é coonatural ao homem; e que um sinal dessa tendência inscrita na natureza humana é, precisamente, o deleite ou prazer que nós sentimos no exercício dos nossos sentidos e, notadamente, do sentido da vista.
Não se trata do deleite que nos proporciona a utilidade do sentido e visto. Aristóteles alude mais especificamente ao prazer que experimentamos pelo fato de sentir ou ver algo. O homem se compraz simplesmente em sentir por sentir, em ver por ver, pela rica variedade das coisas vistas isto é, para o filósofo, um sinal patente de que existe no homem um desejo natural e espontâneo de saber por saber, isto é, de um conhecimento que tem em si mesmo e sua razão de ser.
Acontece que a posse efetiva de um saber assim, desinteressado, que se busca a si mesmo e que exclui qualquer tipo de utilidade, foi sempre, como a história nos ensina, de difícil acesso. A dificuldade radica no fato de que, para chegar a ele, o homem vê-se obrigado a satisfazer uma série de condições fundamentais prévias, concernentes a seu viver mais elementar. O homem deve atender, em primeiro lugar, à suas necessidades básicas e forçar a mente na busca de meios necessários que lhe permitam manter-se na existência. Esta é a condição fundamental mais apremiante: saber prover-se do necessário para poder viver. Mas, a invenção humana não parou aí. Satisfeitas as exigências vitais, o homem procedeu a prestar atenção a outras atividades específicas suas relativas ao modo de se conduzir na vida. E assim foi descobrindo novas artes, novos saberes que servissem de apoio a outras tendências que, seu ser urgentes como os primeiros, vinculam-se, de maneira espontânea, à prática da vida quotidiana. Descobriu, por exemplo, a arte de tornar a vida mais prazenteira e agradável; a arte de proporcionar conforto e comodidade; a arte, enfim, de levar uma vida sossegada e tranqüila. Todo esse conjunto de condições prévias ao exercício do conhecimento desinteressado, revela-se no ditado popular latino, tantas vezes repetido: "Primum est vivere, et deinde philosophare" (o primeiro é viver, e depois filosofar).
Somente, quando solucionados os problemas e provenientes da vida e descobertas as artes concernentes ao prazer, é comodidade e é vida fácil, é que o homem ficou liberado para consagrar-se ao conhecimento desinteressado teórico da ciência.
"E isto é confirmado pelos fatos; já que foi depois de entidades quase todas as necessidades da vida e asseguradas as coisas que contribuem para o conforto e a recreação, que começou a procurar esse conhecimento. Está claro, pois, que nós não o buscamos com a mira posta em qualquer outra vantagem; mas, assim como declaramos livre o homem que existe para si mesmo e não para u outro, assim também cultivamos esta ciência como a única livre, pois só ela tem em si mesma o seu próprio fim."(34)
O nascimento do saber teórico só foi possível a partir do momento em que o homem, livre de conhecimentos externos, entrou na fase do ócio, do lazer, "e isso aconteceu primeiro naqueles lugares em que os homens começaram a desfrutar do ócio".(35)
O termo "ócio", aludido no texto, não é sinônimo de inatividade, de nada fazer. Significa simplesmente vocar para o desnecessário e para o não-utilitário. No ócio, o homem fica desimpedido, liberado das condições referidas, para ocupar-se das coisas com a única finalidade de saber o que elas são em si e por si mesmas. É aí, pois, no ócio, que nasce um tipo de saber diferente, um conhecimento teórico, que se busca a si mesmo. É aí que nasce a teoria.
Merece assinalar o que Aristóteles entendia por teoria.
O termo "teoria", que é abstrato, deriva do termo grego "theorós", que é concreto. O "theorós" era um funcionário público na Grécia, encarregado de assistir aos jogos que se celebravam.
Sua função era dupla. De um lado, o "theorós" assistia simplesmente para ver, como um espectador entre espectadores, sem intervir na marcha do jogo. Mas, de outro, o theoros inspecionava, isto é, tinha a incumbência de ver, de examinar, se o jogo transcorria de acordo com as regras preestabelecidas. Pois bem, esses dois aspectos estão presentes na mente do filósofo, quando fala de teoria. Trata-se, portanto, de um ir ou coisas desprovidas de quaisquer interesses, de um ver por ver; mas ao mesmo tempo, de inspecioná-las, de examiná-las no que e pelo que elas vão em si mesmas.
A teoria, pois, não visa outra coisa que não seja a si mesma, é um conhecimento que está em função de si mesma; e não em função de outra coisa, o que seria arte, técnica, mas não teoria, ciência.
Assim entendia, a teoria, como ciência desinteressada, só pode existir a partir do momento em que o homem entrou na fase do ócio. E, com efeito, foi no Egito, onde, pela primeira vez, apareceu uma classe social organizada, a "casta sacerdotal", que, gozando do privilégio do lazer, deu origem à matemática(36).
Costuma-se dizer que a geometria nasceu no Egito, da necessidade de parcelar as terras após as inundações do rio Nilo. Esta circunstância não era desconhecida pelo nosso filósofo. Contudo, ele enfatiza o fato de que a geometria como teoria, como ciência das figuras nasceu do ócio, não se importando com o uso que, posteriormente, se fizer dela como técnica de medição de terras.
A prova mais significativa de que a teoria não nasceu de necessidades vitais, está no fato de que foi no ócio, quando o homem experimentou, por sua vez primeira, um sentimento de admiração "thaumatzein", de perplexidade, diante das coisas.
Não se trata de um sentimento qualquer. A admiração aludida é a socrática, isto é, aquela que surpreende o homem que julga saber perfeitamente aquilo de que julga saber perfeitamente aquilo de que se ocupa, quando, de repente, num belo dia, ela descobre que aquilo que pensava saber melhor, é, no fundo, desconhecido, ignorado.
"Como efeito, foi pela admiração que os homens começaram pouco a pouco e enunciaram problemas a respeito das maiores, como os fenômenos da Lua, do Sol e das estrelas, assim como a pênese do universo. E o homem que é tomado da perplexidade e admiração julga-se ignorante"(37).
Para fugir é essa ignorância, é que nasceu do ócio a teoria, o saber teórico, e os homens começaram a filosofar. Também do ócio e por igual motivo, isto é, para fugir é ignorância, surgiu outro tipi de saber que, em certo modo, é teoria: o mito.
A título de digressão, nos diz Aristóteles:
"O amigo dos mitos é, em certo sentido, um filósofo, pois também o mito é tecido de maravilhosos"(38).
Mas, o que interessa ao nosso filósofo, de momento não é a indagação do mito como teoria, senão da teoria como ciência, como saber que se basta a si mesmo. E, neste sentido. Toda episteme, toda ciência é teoria, na medida em que é um modo de considerar, de inspecionar o seu objetivo. Ora, como vimos na 1ª parte, a filosofia é uma episteme rigorosa, uma ciência apódica demonstrativa. Logo, a filosofia é teoria, conhecimento que se busca por si mesmo.
É sabedoria em plenitude de sentido; e o homem que a possui, um sábio estrito. Contudo, Aristóteles não se satisfaz, dizendo que a filosofia é sabedoria. Ele quer dar um passo à frente e justifica, por demonstração, a natureza do conhecimento que, propriamente, e constitui. E assim inicia sua demonstração descrevendo, com traços vigorosos, os conceitos que definem o homem sábio para os gregos; e mostrando, a seguir, que todos que eles, sem exceção se encontram em sua filosofia, sendo por isso mesmo, suprema sabedoria. Percorramos esses caracteres. O filósofo enumera seis:
Expostas as características as características que definem o sábio, nosso filósofo tenta fazer ver, por via demonstrativa, que todas elas, repassando uma a uma em estrita ordem de correspondência, se realizam em sua filosofia, razão porque é chamada, com todo rigor, suprema sabedoria e quem a possui, sábio no mais alto grau.
Ora, ninguém mais sábio então do que aquele que conhece o ser enquanto ser; pois o ser como tal abarca absolutamente a totalidade das coisas, tudo quanto existe. Por isso, a noção do ser é a mais universal de todas as noções. Nada fica fora do seu âmbito. Isso não significa, entretanto, que o filósofo conheça todas as coisas, umas após outras, na sua peculiaridade individual, porquanto isso seria experiência, arte, mas não filosofia. As coisas entram no âmbito da filosofia pelo fato de "ser". Guardemo-nos, porém, de interpretar esse "ser" como um aspecto, o mais geral, que as coisas possuem. Pois, nesse caso, a filosofia conheceria apenas um dos aspectos das coisas. Muito pelo contrário, o ser, de que se ocupa a filosofia, compreende, não só todas as coisas, como também tudo quanto cada coisa é; ele transcende, portanto, todas as características, até as individuais, pelo simples fato de que todas elas tem seu modo de ser. Ora, se a sabedoria se mede pela universalidade com que conhece as coisas um determinado domínio, então nada mais universal que a filosofia a qual abarca, com seu saber, a totalidade de tudo quanto existe. Logo, a filosofia é suprema sabedoria.
É uma descrição magnífica da idéia de sabedoria que Aristóteles se formou e da função intelectual que ela exerce no contexto geral do conhecimento humano.
3. ATIVIDADE FILOSÓFICA
Que a filosofia, segundo Aristóteles, é um modo de conhecer as coisas, ficou assentado na 1ª parte do nosso trabalho. Não se trata de conhecê-las de uma maneira qualquer, senão com rigor científico, com a política demonstração. Mais ainda, como vimos, na 2ª parte, ela é a forma superior do saber, a suprema sabedoria, além da qual é impossível pensar outra coisa. Se, pois, a filosofia é conhecimento, o mais elevado que o homem pode alcançar, então é tarefa, empreendimento, atividade, e a mais tipicamente humana que cabe realizar. Pergunta-se: em que consiste essencialmente essa atividade filosófica?
É bem sabido que o homem, ao longo de sua existência, pratica uma gama variadíssima de atos, os mais diversos; atos que vão dos puramente naturais e fisiológicos aos morais e cognitivos.
O conjunto ou somatório de todos esses atos, em que se dilui a atividade vital humana, é o que os gregos chamavam de "vida" . o conceito de vida, portanto, abrange a totalidade de atos realizados por cada homem durante a sua existência. Pois bem, concebida como um todo unitário, a vida está motivada por uma atitude fundamental, por um "ethos" subjacente nela, que marca, por assim dizer, a direção do seu desenvolvimento. Ora, as atitudes, os "ethos", são diferentes para cada vida, resultando em tipos de vida também diferentes. Daí falarmos da vida do agricultor, da vida do político, da vida do guerreiro etc. diferentes vidas que corresponde à atitudes, à "ethos" diferentes. O problema, que nos ocupa, se reduz então a determinar, com o maior rigor possível, qual seja o tipo de vida do homem que consagra à filósofo. Esta colocação, por ser mais concreta, esclarece melhor o nosso propósito nas presentes linhas.
Lembramos o que já foi dito sobre as condições prévias à atividade filosófica. Para filosofar, nos diz Aristóteles, o filósofo deve desfrutar do privilégio do ócio. Isto é, estar liberado de quaisquer necessidades externas e internas, ser livre. E "livre é o homem que existe para si mesmo e não para o outro".(51)
Por isso se diz da filosofia que é uma ciência eminentemente liberal, não só porque nasce de uma situação de liberdade, senão porque ela não tem outras necessidades que as impostas pela natureza das coisas. Ela busca o saber pelo saber mesmo. A liberdade, entretanto, é um pressuposto, uma condição que torna possível a vida do filósofo; porém nada nos revela acerca da índole particular de sua própria vida.
Nos primeiros capítulos da Ética a Nicómaco, o Estagirita se empenha na indagação de qual poderá ser o bem supremo que paralise a atividade do homem. E aceite como boa a opinião comum de que esse bem não pode ser outro que a felicidade. Se é certo que todos os homens, por natureza, desejam saber, não é menos certo que todos desejam, naturalmente, ser felizes.
"Verbalmente, quase todos estão de acordo, pois tanto o vulgo como os homens de cultura superior dizem ser esse fim a felicidade e identificam o bem viver e o bem agir como o ser "feliz".(52)
O problema está agora em determinar o que cada homem entende por felicidade. Porque, segundo Aristóteles, não existe unanimidade de pareceres. Por outro lado, consultar a opinião particular de cada um, é tarefa irrealizável. Por isso, o filósofo se limita a descrever três tipos de vida diferentes, nos quais pode distribuir-se a totalidade das opiniões dos homens, segundo o bem que eles buscam.
"Pode-se dizer, com efeito, que existem três tipos principais de vida: a que acabamos de mencionar (a vida do prazer), a vida política e a contemplativa."(53)
Ao primeiro tipo de vida pertencem os homens que:
"Identificam a felicidade com o prazer, e por isso amam a vida dos gozos."(54)
Mas a felicidade não pode consistir na vida de prazer; por duas razões fundamentais: a primeira, porque a vida de gozo é mais própria de escravos do que de homens livres; a segunda, porque, os que assim agem, buscam a satisfação em coisas cuja existência independe da própria vida.
Ao segundo tipo pertencem os homens que:
"Identificam a felicidade com a honra; pois a honra é, em suam , a finalidade da vida política."(55)
Esta opinião também é inaceitável para o nosso filósofo apesar ser a política uma atividade própria de homens livres. Parece-lhe demasiado superficial e dependente.
Com efeito, "a honra depende mais de quem a confere que de quem a recebe",(56) e, além disso, ela está ordenada a convencermos, perante os outros, de que somos moralmente virtuosos.
Talvez estivéssemos dispostos a afirmar que a vida do homem está destinada à virtude moral, como a seu fim último. Mas também esta opinião é descartada porque "incompleta". A virtude moral pode coexistir com a "inatividade, e mais ainda, ela é compatível com os maiores sofrimentos e infortúnios. Ora, salvo quem queira sustentar a tese a todo custo, ninguém jamais considera feliz um homem que vive de tal maneira."(57) Por outro lado, as virtudes morais como a justiça, a amizade, a liberalidade etc. consideradas, cada uma em particular ou em seu conjunto, não se sustentam em si mesmas. Elas requerem a existência de seres humanos, sobre os quais possa recair sua ação e sem os quais seria impossível a sua existência.
Por conseguinte, a felicidade, como bem supremo do homem, não pode consistir, nem na vida de prazer, nem na vida política, nem sequer na vida moral virtuosa. Se é uma atividade permanente e humana, ela deverá buscar-se no elemento específico que constitui propriamente a vida do homem. Tal não pode ser a vida de crescimento ou de reprodução, nem a vida de percepção, pelo simples fato de que essas atividades vitais "são comuns ao cavalo, ao boi e a todos os animais"(58); e a atividade que buscamos é exclusiva e peculiar ao homem. Ora, o elemento ativo específico de que só o homem é possuidor e pelo qual se diferencia dos seres naturais, é a razão. Logo, a felicidade perfeita só pode consistir na atividade da razão. Ela é, sem dúvida, uma atividade virtuosa.
É importante assinalar que a virtude tal como é concebida pelo filósofo, não coincide perfeitamente com o nosso modo de pensar.
Para nós, o termo "virtude" possui geralmente uma conotação moral refere-se a atividade moral do homem. Para os gregos, no entretanto, conserva matizes diferentes, tem uma significação bem mais ampla. Por virtude em geral, eles entendiam a aptidão de algo com vista ao melhor, a habitude daquilo para o qual é bom. Por exemplo, a virtude da faca é cortar, pois é para isto que ela é boa; a virtude da árvore é dar bons frutos etc. Por isso, quando Aristóteles nos fala de que a felicidade é uma atividade conforme a virtude, isto é, conforme aquilo para o qual o homem é bom. Ora, o homem pode ser bom de duas maneiras: uma, com o exercício das virtudes estritamente morais, de bondade, da justiça etc.; outra, com o exercício das virtudes intelectuais ou dia noéticas, isto é, das virtudes radicadas na atividade de "o nous" ou da inteligência. A primeira refere-se ao caráter e comportamento do homem com seus semelhantes. A segunda refere-se à inteligência e ao conhecimento que ela pode alcançar.
"A virtude também se divide em espécies de acordo com esta diferença, porquanto dizemos que algumas virtudes são intelectuais e outras morais; entre as primeiras temos a sabedoria filosófica, a compreensão, a sabedoria prática; e entre as segundas, por exemplo, a liberalidade e a temperança. Com efeitos, ao falar do caráter de um homem não dizemos que ele é sábio ou que possui entendimento, mas que é calmo ou temperante. No entanto, louvamos também, o sábio, referindo-nos ao hábito; e aos hábitos dígnos de louvor chamamos virtude"(59).
Note-se que no texto aduzido, a "phrónesis" (a prudência) ou sabedoria prática, que seria para nós uma virtude moral, é classificada entre as virtudes intelectuais ou dianoéticas. E isto porque, como já sabemos, para o Estagirita, a prudência é um modo de "saber atirar", que tem, na própria ação, o seu fim. Ao lado da prudência, menciona, como virtude intelectual, a sabedoria filosófica, isto é, a atividade que se processa na parte mais elevada e profunda da alma, qual é "o nous" ou razão intuitiva e que constitui propriamente a vida teorética ou contemplativa. Esta é sem dúvida, a vida mais feliz a que o homem pode aspirar.
Se, pois, a vida teorética, em que consiste a felicidade perfeita, é a mais digna do homem, será preciso que o filósofo nos mostre a razão ou as razões de sua excelência e superioridade. Com efeito, e, prol de sua tese aduze seis razões.
1ª) Em primeiro lugar, a atividade teorética é a mais excelente, não só por ser exercida pela razão ou "o nous", que é o elemento mais precioso que existe em nós, como também pelos objetos que ela visa, que são os melhores e mais sublimes; porquanto se inclui o próprio Deus. (60)
2ª) Em segundo lugar, a vida teórica é a mais prolongada e continua. Qualquer outra atividade cessa a partir do momento em que o objeto desejado é adquirido. Não sucede assim com a atividade filosófica; quando alcança o objeto cobiçado torna-se atividade plenária e incessante. Pela sua própria índole, a atividade filosófica é inesgotável.
3ª) Ninguém duvida que o prazer é um ingrediente da felicidade. Pois bem, "a atividade" filosófica e reconhecidamente a mais aprazível das atividades virtuosas, pelo menos, julga-se que o seu cultivo oferece prazeres maravilhosos pela pureza e pela durabilidade, e é de supor que os que sabem passem o seu tempo de maneiras mais aprazível do que os que indagam"(61).
4ª) A vida teorética ou filosofia é uma atividade que se basta a si mesma. É verdade que o filósofo, como qualquer outro cidadão que se empenhar na prática das virtudes morais, necessita das coisas indispensáveis à vida. Contudo, o cidadão que exerce a justiça ou a temperança "precisa ter com quem e para com quem agir justamente ou com moderação; ao passo que o filósofo não necessita de ninguém, e mesmo quando sozinho, pode contemplar a verdade, e tanto melhor o fará quando mais sábio for. Talvez possa fazê-lo melhor se tiver colaboradores, mas ainda assim, é ele o mais auto-suficiente de todos"(62).
5ª) A atividade filosófica "é a única que merece ser amada por si mesma" e não pelos resultados que dela possa derivar. No âmbito das atividades práticas, o desejável não é tanto a ação mesma, quanto a utilidade que podemos tirar através dela. A atividade filosófica é fim em si mesma(63).
6ª) Por último, parece ser que "a felicidade depende do ócio; porquanto trabalhamos para ter momentos de ócio, e fazemos a guerra para poder viver em paz. Ora, a atividade das virtudes práticas exerce-se nos assuntos políticos ou militares, mas as ações relativas a esses assuntos não parecem encerrar ócio. Principalmente as ações guerreiras... Mas também a ação de estadista não encerra ócio, a além da ação política em si mesma, visa ao poder e às honras despóticas"(64).
Por conseguinte, nem a vida do guerreiro, nem a do político são desejáveis em si mesmas. Elas visam a fins diferentes da própria ação. Não acontece assim com a vida do filósofo que além de ser amado por si mesmo, é capaz de tornar o homem sumamente feliz, sobretudo "se ela abarca uma existência completa quando à duração"(65).
Uma vida, com que acabamos de descrever, é a expressão cabal do elemento verdadeiramente divino que existe em nós. Não sigamos, portanto, os conselhos daqueles que dizem que, por sermos humanos e mortais, devemos preocupar-nos de coisas humanas e mortais. Muito pelo contrário, "na medida em que isso for possível, procuraremos tornar-nos imortais e envidar todos os esforços para viver de acordo com o que há de melhor em nós; porque ainda que seja pequeno quanto ao lugar que ocupa, supera a tudo o que mais pelo poder e pelo valor"(66).
Além de divina, a razão ou "o nous" é o elemento mais real, dominante e o melhor da vida humana; é o que faz do homem ser essencialmente homem. E seria estranho que, na hora da escolha, nos decidíssemos por outra vida que não pela nos é peculiar e exclusiva.
A vida teorética é também a mais excelente de todas as vidas, porque, por ela, nos assemelhamos à vida do próprio Deus.
Todo mundo está de acordo em que Deus é bem-aventurado e plenariamente feliz. Observemos de perto sua atividade específica. Ele não se exercita em atos de justiça, de liberdade, de temperança etc. pois este modo de proceder seria indigno e impróprio de Deus. E, no entanto, o consideramos vivo e puramente ativo. Em que pode residir então a sua vida, a sua atividade, senão em pura teoria? A vida divina é essencialmente teorética, e ainda pura, pois não depende de objetos conhecidos que não sejam Ele mesmo. A atividade de Deus consiste em conhecer-se a si mesmo; é pensamento que se pensa a si mesmo; é "o Nous" de "o Nous". E este modo de viver confere a Deus a mais plenária e perfeita felicidade.
Existe, entretanto, uma diferença notável entre a vida divina e a humana. A vida de Deus é "sempre", eterna; ao passo que a nossa é por tempo limitado, temporal. Contudo, a atividade estritamente humana, sem ser pura como a divina, pois recai sobre o que é "sempre", sobre objetos eternos, é no entanto, um reflexo, um Icalrão da vida de Deus em nós através do qual nos tornamos imortais. A vida filosófica é assim a vida mais propriamente humana e, ao mesmo tempo, a mais divina a que podemos aspirar. É a suprema felicidade. CONCLUSÃO
Do exposto, evidencia-se a altíssima idéia que o filósofo formou da filosofia, da "sua" filosofia. Como conhecimento, ela se interessa pelo ser enquanto ser e pelos princípios e causas intrínsecas que o constituem. Como função intelectual, a filosofia desempenha a missão de ser a forma de sabedoria mais perfeita, a sabedoria por excelência, a primeira, na qual se fundamenta e da qual recebem luz as sabedorias secundárias. Finalmente, como atividade, a filosofia exercita o elemento mais valioso e peculiar do homem, "o nous", através do qual a vida do filósofo se assemelha à própria vida de Deus. Assim pensou Aristóteles de sua filosofia.
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
(34) Met. 982 b 22-28
(35) Met. 981 b 22-23
(36) Met. 981 b 24
(37) Met. 982 b 13-18
(38) Met. 982 b 19-20
(39) Met. 982 a 8-10
(40) ibidem.
(41) ibidem.
(42) ibidem.
(43) ibidem.
(44) ibidem.
(45) Met. 983 a 20-23
(46) Met. 983 a 24
(47) ibidem.
(48) ibidem.
(49) Met. 983 a 6
(50) Met. 983 a 11
(51) Met. 982 b 26
(52) Et. a Nic. 1095 a 17-19
(53) Idem 1095 b 17-28
(54) Idem 1095 b 15
(55) Idem 1095 b 23
(56) Idem 1095 b 24
(57) Idem 1096 b 1-4
(58) Idem 1098 b 1-2
(59) Et. a Nic. 1103 4-10
(60) Idem 1177 a 20-22
(61) Idem 1177 a 24-27
(62) Et. a Nic. 1177 a 24-27
(63) Idem 1177 b 2-4
(64) Idem 1177 b 5-12
(65) Idem 1177 b 25
(66) Idem 1177 b 30-35
Trabalho publicado na revista Filosofia em Revista 85.3-4